segunda-feira, 8 de junho de 2009

Matemática, Física e Universo e Racionalidade Científica














Ao ler um artigo de Marcelo Gleiser no Jornal Folha de São Paulo. A respeito do teor apresentado pelo artigo, o achei muito interessante, porém como sempre, surgiram críticas à postura de Marcelo Gleiser, uma vez que ele mencionou que “ O único deus matemático é aquele que inventamos”.


Vejamos o artigo: AQUI E AQUI


No artigo "Será Deus um matemático?", publicado na Folha de São Paulo e republicado no Jornal da Ciência, Marcelo Gleiser menciona "o grande físico teórico Eugene Wigner, que ganhou o Prêmio Nobel pelos seus estudos das simetrias matemáticas que regem o comportamento atômico, achava a eficácia da matemática na descrição dos fenômenos naturais surpreendente. Por que ela funciona tão bem a ponto de nos permitir prever coisas que nem sabíamos que poderiam existir?" Gleiser cita também o escocês James Clerk Maxwell, que mostrou que todos os fenômenos elétricos e magnéticos podem ser descritos por apenas quatro equações. Maxwell não poderia imaginar que dessa união viria a descoberta de que a luz é uma onda eletromagnética e que outras existem, invisíveis aos nossos olhos, como os raios X ou as micro-ondas. Várias partículas elementares da matéria foram descobertas usando apenas princípios de simetria. Será que a natureza é mesmo uma estrutura matemática?"



[Tudo na natureza segue um padrão matemático; desde o mundo quântico, passando por uma concha de molusco até o movimento planetário, das bem como a própria estrutura do universo, uma vez que podem ser representados por equações, sejam elas empiricamente obtidas ou via construção lógico-matemática.]


Gleiser pergunta: "Será, então, que uma civilização extraterrestre redescobriria os mesmos resultados matemáticos do que nós, como se fossem uma espécie de código da natureza? Pitágoras, Platão, Galileu, Newton, Einstein, muitos matemáticos (mas não todos) e os físicos que hoje trabalham em teorias de supercordas diriam que sim. Talvez mudem os símbolos, mas a essência dos resultados seria a mesma."


[Certamente que isso ocorreria, uma vez que, em tese, estamos eles e nós no mesmo universo.

Não haveria razões para os fenômenos dentro deste universo seguirem matemáticas que escapariam a nossa noção.


Exceção feita se estivessem em um universo distinto o que sequer conheceria os padrões deste universo e tivesse os seus próprios, representado por uma matemática singular.]


E então, como alguém que chega perto da luz mas lhe dá as costas, tendo que contemplar apenas a própria sombra, o físico brasileiro arremata: "Não há dúvida de que certos resultados matemáticos, como 2 + 2 = 4, são verdadeiros independentemente de como sejam descritos. Mesmo assim, vou além de Livio e afirmo que a matemática é uma invenção humana, uma linguagem criada para descrever a nossa realidade. Somos produtos de milhões de anos de evolução, adaptados ao mundo em que vivemos. ... Nossa geometria descreve aproximadamente as formas que vemos à nossa volta; esferas, quadrados, cubos, círculos, linhas. Ela vem de um cérebro adaptado ao mundo em que existe. Se uma civilização extraterrestre tiver desenvolvido linguagem equivalente, é porque existe numa realidade semelhante. O único Deus matemático é aquele que inventamos."



[Certamente que é inegável que o que a geometria, no caso de nosso cérebro que é adaptado a três dimensões, vê é aquela que se denomina geometria euclidiana. Até o momento, não se descobriram humanos que percebam imagens em 4 ou mais dimensões, embora elas existam no tecido do espaço tempo.


Se os tais “seres” mencionados por Gleiser existirem e forem adaptados para 3 dimensões, eles verão como nós e sua matemática será tal como a nossa.


Mas dizer que os deuses descobriram a matemática, é extrapolar ao bom senso, pois que eu saiba nenhum deus entregou a matemática para os homens.


Nos simplesmente a descobrimos ao examinar os fatos que se passavam ao nosso redor, as regras ou leis segundo as quais eles se comportavam e ainda se comportam.


A matemática existe porque existem padrões no universo. Somente necessita que se descubram tais padrões e qual a matemática que se aplica a eles.]


Segue a nota dando o ar de criacionismo / DI:


O que dizer, então, dos padrões lógicos observados em outras áreas da ciência, como a química (tabela periódica dos elementos) e a física (leis e constantes universais)? Essas não foram inventadas pelo ser humano. Ele apenas as descobriu. No entanto, sem essas leis, não haveria Universo, nem vida. Quem regulou essa precisão toda? O Químico inexistente? O Físico imaginário? O naturalismo filosófico, que assume a priori a inexistência do sobrenatural, continua impedindo muita gente de ver as coisas com outros olhos.[MB]


[As ciências naturais não foram inventadas por humanos ou por deuses. Elas são observadas na natureza e interpretadas por nós. No caso da física, pela matemática, no caso da química por ambas as anteriores e no caso da biologia pelas três anteriores.


Citando a frase No entanto, sem essas leis, não haveria Universo, nem vida.eu acrescento “universo como conhecemos”, pois poderia haver leis diferentes e conseqüentemente universos distintos. Mas na ausência de leis matemáticas, quaisquer que fossem, nada existiria.

Para a indagação feita:


Quem regulou essa precisão toda? O Químico inexistente? O Físico imaginário?”


Respondo que é extremamente complexo discorrer sobre este tema, principalmente porque a questão envolve estados quânticos das partículas ao se tratar de como é feito o universo. Mas, vamos tentar:

Estes estados quânticos são probabilísticos e podem ocorrer de formas inusitadas.


Estado quântico é qualquer estado possível em que um sistema mecânico quântico possa se encontrar. Um estado quântico plenamente especificado pode ser descrito por um vetor de estado, por uma função de onda ou por um conjunto completo de números quânticos para um dado sistema.


Ao estado quântico de menor energia possível dá-se o nome de estado quântico fundamental.


Os números quânticos descrevem as energias dos elétrons nos átomos e são de enorme relevância quando se trata de descrever a posição dos elétrons nos átomos e surgem naturalmente da solução matemática da equação de Schrödinger.


Mas como sabemos a partir da teoria das cordas, partículas diferentes vibram de formas distintas, assim como na música.


Há membranas vibrantes além das cordas o que fez a teoria das cordas evoluir para a teoria M. Assim, as partículas assumem características de membranas e de cordas, resultando em um universo com 11 dimensões, uma temporal, três espaciais visíveis e sete recurvadas.


A teoria-M é, na verdade, a soma de cinco teorias das supercordas, que variam em aspectos como tamanho e formas geométricas das dimensões recurvadas, mas têm a mesma essência.


Esta teoria dá coesão ao universo, uma vez que explica coisas grandes e pequenas de forma unificada.

Mas, caso esta corda ou membrana vibre de uma forma diferente, haverá a formação de uma partícula diferente. No caso de um universo que se expande para sempre seu destino final seria ficar, para sempre, completamente cheio de radiação. Tudo existente nele de alguma forma decairia de volta a radiação.


O decaimento de prótons e nêutrons em quarks aniquilaria toda a matéria do universo, ficando este composto por quarks, fótons, neutrinos e pions, e se expandiria até sua morte térmica (a energia está toda dentro do universo, porém degradada em calor).


Todavia, uma variação no estado quântico destas partículas poderia fazer o universo recolapsar e dar origem a um novo universo, com características muito distintas deste que estamos agora.


Também, a partir das diversas soluções apresentadas pelas teorias das cordas e M, pode haver um multiverso de estados quânticos. Ou seja, deve haver um número infinito de universos paralelos interagindo uns com os outros e nascendo uns a partir de outros.


A teoria das cordas introduz o multiverso devido ao grande número de soluções que possibilita. Na teoria M, estes universos podem, de fato, colidir uns com os outros.


A teoria do Loop Quantum Gravity traz a idéia de um Grande Salto, ou seja, um acontecimento cósmico que representa simultaneamente o fim de um universo e, partir de seus despojos, o nascimento de um novo. Apresenta uma descrição matemática que permite deduzir as propriedades de um universo anterior, cujo colapso fez surgir o nosso.


A teoria do loop quântico estabelece que o tecido do espaço-tempo tem uma geometria atômica construída com fios quânticos unidimensionais. As leis da física quântica, que dominam as condições extremas nos instantes imediatamente anteriores ao colapso do universo que precedeu o nosso, faz com que esse tecido de espaço-tempo seja violentamente rasgado (big rip). A gravidade então se torna fortemente repulsiva e aí se dá o Grande Salto. E nasce o nosso universo.


Nesse acontecimento dramático é possível tirar pelo menos duas conclusões importantes sobre esse universo anterior. A primeira é que ele apresentava um comportamento de contração, contrariamente ao que agora acontece com o nosso, que está em expansão. A segunda é que ele possuía uma geometria do espaço-tempo similar à apresentada pelo nosso universo.


A teoria do loop quântico, proposta por Martin Bojowald, descarta a idéia de que o de que o universo renasceria seguidas vezes, contraindo-se e renascendo sempre com as mesmas características.


Pelo menos um dos parâmetros que se referem ao universo anterior não sobrevive à viagem através do Grande Salto, denominado como “esquecimento cósmico” a que se refere o cientista. Assim, a eterna recorrência de universos absolutamente idênticos parece ser uma impossibilidade devido à aparente existência de um esquecimento cósmico intrínseco.


Se esta teoria estiver correta, o big rip seria o fim do universo e o início de outro universo, a partir da dissociação do entrelaçamento entre a gravidade, a força nuclear forte e a fraca e a força eletro-magnética, liberando a gravidade e provocando-se a expansão de um novo universo.


Assim, empurrar a questão para o sobrenatural não a soluciona. Simplesmente a muda de lugar tornando-a dogmatizada e insondável por qualquer método científico. Atribuir uma causa primeira a algo que não possui causa é se valer de argumentação teológica tal como a de Tomás de Aquino.




Argumentos teológicos são para fundamentação de crenças religiosas, uma vez que se fundam em bases dogmáticas, diferentemente das exigências científicas que devem se fundar sobre bases zetéticas.



O NATURALISMO E A CIÊNCIA:


Sobre a questão do termo “naturalismo filosófico”, não há impedimento de ninguém ver ou deixar de ver nada. Simplesmente, a ciência deve afastar teorias metafísicas teológicas de seus métodos, uma vez que estas não se tratam de matéria passível de ser testada.


O naturalismo é uma teoria metafísica e como tal trata da natureza da realidade.


Dessa forma, o naturalismo funda a moderna teorização cientifica. Referências à moral e a propósitos divinos não têm lugar em ciência. Ela é limitada pela explicação de fenômenos empíricos sem referência a forças poderes, influências, etc, que sejam sobrenaturais.


A ciência moderna é naturalista. O naturalismo corretamente compreendido, assim como a ciência, não negam a existência de Deus, livre vontade, fenômenos espirituais, Providencia ou criação por Deus, diferentemente de ateus que negam a existência de Deus; deterministas que negam a existência da livre vontade; materialistas que negam a existência de fenômenos espirituais e positivistas que negam sentido à teorização metafísica.


A ciência não deve ser palco para especulações sobrenaturais como o criacionismo e Design Inteligente, pois até então, não há evidências concretas e plausíveis para que nos direcionemos a acatar qualquer hipótese aventada por estas ideias, como é o ar dado no questionamento.


Até o momento, a experiência tem demonstrado a ausência de dados que indiquem a existência de um ser responsável pela criação do universo e que o que existe de conhecido se limita a fenômenos meramente naturais.


O que a ciência usa em seus métodos, é o naturalismo metodológico, que se trata de afastar o divino, o insondável de suas investigações e atribuir que todos os fenômenos verificados na natureza possuem causas meramente naturais e, portanto, passíveis de serem cientificamente estudadas.


Assim, para termos “outros olhos” em ciência há a necessidade de haver evidências plausíveis que nos dêem um norte para estabelecer um outro caminho, que jamais pode ser citado aprioristicamente com base em subjetivismos.]


[Mas os ataques a Marcelo Gleiser prosseguem: por Evandro Costa de Oliveira, estudante de matemática da USP]


Marcelo Gleiser chutou o balde mesmo. Disse que "nossa geometria descreve aproximadamente as formas que vemos à nossa volta; esferas, quadrados, cubos, círculos, linhas". Um aluno do Ensino Médio talvez pudesse dizer isso. Mas alguém que faz curso superior, não. Além dos axiomas básicos da geometria e que a idéia de tais não é nada simples, há muitas formas complexas de geometria - muito utilizadas e trabalhadas na matemática -, mas pouquíssimo observadas no mundo real, como os espaços curvos e hiperbólicos. O que dizer, então, de uma geometria em R^n (lê-se como se o "n" fosse um expoente), no qual interagem dimensões que não podem ser observadas? E num curso de cálculo 4 e avançado no qual se vêem funções em Rn, e domínios em Rn. E mesmo naqueles "espaços", não oculares, a geometria ainda trabalha, sobretudo uma geometria vetorial.


[Em primeiro plano, a geometria que Gleiser se referiu se trata da Geometria Euclidiana, a qual estuda o ponto, a reta e o plano (aqui incluída a geometria plana ou bidimensional) e suas devidas composições que formam os sólidos em três dimensões, ou seja, ela estuda tudo aquilo que temos a capacidade de ver, pois nossos olhos vêem em 3 dimensões.


A geometria a que você se refere, ao mencionar os espaços R^n, Evandro, se denomina Álgebra Linear, muito utilizada em soluções de sistemas de equações, em cálculos de produtos escalares e vetoriais, em aproximações por séries ou polinômios, transformações de sentenças complexas em matrizes, que também são vetores entre diversas outras aplicações.


Ao mencionar o espaço curvo, entramos em um mundo tetradimensional, o qual se denomina espaço-tempo da teoria da relatividade, que se tratam de acontecimentos físicos, ou seja, algo que ocorreu num certo local e num certo instante.


Ao se tratar de espaços hiperbólicos, este se trata de um espaço n dimensional, porém com curvatura negativa.


Um bom exemplo de aplicação da geometria R^n são os espaços de Hilbert, muito utilizados em mecânica quântica, onde os vetores de estado (contém todas as informações do sistema e complexidades multifocais), que são seqüências de números complexos ou funções.


Os espaços de Hilbert permitem que, de certa maneira, noções intuitivas sejam aplicadas em espaços funcionais (ex. séries de Fourier e os polinômios ortogonais).


Mas este mundo não está ao alcance de nossos olhos, apenas de nossos cálculos, exceto se vivêssemos no mundo do infinitamente pequeno (mundo quântico). Daí a referência de Gleiser à “nossa geometria”, ou seja, aquela que podemos perceber a nossa volta, não aquela abstrata que segundo a teoria de Kaluza-Klein existiriam 7 dimensões enroladas no comprimento de Plank, sendo que o universo possuiria 11 dimensões (3 vemos e 1 percebemos, o tempo).]


Matemática, sim, é uma invenção humana, pois se trata de uma linguagem; de modo de pensamento. Contudo, é uma ferramenta e analisa e estuda a lógica, os fatos, o verdadeiro, o transcendente, independente de uma pessoa ou outra. Logo, se a humanidade não existisse, ainda assim os fatos continuariam, 2 + 2 continuaria sendo 4, mesmo não havendo nenhum homem para verificar isso.


Matemática está longe de ser diminuída a algo que apenas descreve nossa realidade. Um simples conhecimento da História da Matemática permitiria verificar que no passado houve muitas descobertas matemáticas, porém, de fatos e comprovações ainda longe da realidade. Apenas muitos anos depois foram de fato utilizados de algum modo ou comprovados. Diga-se de passagem, os números complexos.












[A matemática estuda o raciocínio lógico e abstrato, e se lança na busca da verdade, mantendo precisão e rigor metodológico.


O trabalho do matemático consiste em examinar padrões abstratos, tanto reais como imaginários, visuais ou mentais. Ou seja, procura-se regularidades nos números, no espaço, na ciência e na imaginação e quais as relações entre elas.



As estruturas abstratas partem do axioma, que é sentença ou proposição que não é provada ou demonstrada e é considerada como óbvia ou como um consenso inicial necessário para a construção ou aceitação de uma teoria. Por essa razão, é aceito como verdade e serve como ponto inicial para dedução e inferências de outras verdades (dependentes de teoria).


Após partir dos axiomas, utiliza-se a lógica formal como modo de estruturar as demonstrações, ou seja, temos a hipótese, tese e a demonstração para que possamos estabelecer um teorema (afirmação que pode ser provada, por exemplo, que 1 é igual a 1, que 1 é maior que zero e que 2 + 2 é igual a 4).


Os números se tratam de objetos matemáticos que descrevem quantidades, ordens ou medidas, sendo um conceito abstrato e intuitivo.


Ou seja, nos os criamos para representarmos o que nos cercava, uma vez que a matemática existia (quantidade, ordem e medidas) e somente precisava de ferramentas para interpretá-la, assim como fizemos com os signos que interpretam nossa linguagem falada (ideogramas, fonemas e letras).


Sobre os números complexos, estes na verdade são vetores e são utilizados principalmente em elétrica no diagrama de fasores da corrente elétrica, pois são na verdade vetores, uma vez que se apresentam por pares ordenados e possuem módulo, direção e sentido, além de poderem ser representados em formas trigonométricas que lhe conferem operacionalidade.


Suas aplicações são muito exploradas no campo das variáveis complexas, tais como: temperaturas estacionárias em paredes, fronteiras isoladas e quadrantes, potencial elétrico, escoamento de fluidos bidimensionais, em cantos e cilindros e função de corrente.]


Se o Universo é regido por leis matemáticas e padrões de tais existe em praticamente tudo. Eles não passam a existir apenas quando o homem os observa, consegue escrever, formular e divulgar no meio acadêmico. O fato existe, está sempre ali, independentemente do homem. A matemática pura está universalmente presente, mesmo antes de o homem fazer contas. Dizer que ela apenas existe quando o homem a reconhece é no mínimo um equivoco. Há ainda muita "matemática" lá fora, e aqui dentro, não a ser descoberta, reconhecida; que existe, independentemente do homem. Caso contrário, pararíamos por aqui, pois nada mais há a descobrir, não há mais matemática a se desenvolver; pois se ela é limitada ao homem, no momento, então, toda a matemática está descoberta.


[Obviamente que a matemática existe independentemente de nós a descobrirmos, tanto que a física muitas vezes tem de parar por falta de matemática que dê seqüência e corpo ao seu raciocínio.


Quando alguém consegue encontrar a matemática que dará suporte àquela física, continuamos nossa empreitada.


Todavia descobrir esta matemática ainda está limitado ao nosso cérebro e a nossa forma abstrata de raciocinar.


Mas certamente, se o fenômeno ocorre, há sem dúvida uma forma de descrevê-lo e prevê-lo, que será realizada pela matemática.]


Gleiser chutou o balde. Admitir que há uma regência matemática no Universo ficou dificil para ele, apesar de dizer: "Talvez mudem os símbolos, mas a essência dos resultados seria a mesma."

Por que isso intriga? Certamente, porque admitir que toda essa lógica exista como fruto de mero acaso, de um acidente, sem propósito, sem uma razão por detrás, sem "um músico que goste de compor músicas melodiosas e harmônicas", seja uma ousadia muito forte, que contraria toda a intuição matemática; e admitir seria contradizer sua religião, sua crença, sua fé - cega - de que Deus não existe e ponto.


[Realmente se existir vida inteligente fora daqui, seria meio difícil nos comunicarmos com eles (nos filmes aliens falam inglês perfeitamente), seja por linguagem oral ou pela escrita.


Quanto à matemática, esta se comportará da mesma forma seja aqui seja em Andrômeda, desde que não estejamos dentro de uma singularidade do espaço – tempo.


Ao mencionar que tudo isso tem um propósito, é uma “forçação de barra” para aceitação do princípio antrópico.


Este princípio é usado quando não temos uma explicação melhor para as coisas, ou seja, a meu ver, é uma abominação ao raciocínio, à pesquisa e ao bom senso.


O universo e a matemática são assim como são, pois, em sua origem, a singularidade deste universo deu condições para esta forma de matemática, de física, de química e de biologia (pelo menos aqui na Terra).


No mundo do infinitamente pequeno há muitas probabilidades de estados quânticos. Pode ser que antes do big bang tenham ocorrido outros universos com duração de zilhões de anos ou com durações efêmeras de mili-nano-pico-segundos, sendo que em ambos poderíamos ter uma matemática que não teria nada a ver com a que rege este universo.


O raciocínio que usa, é uma alusão a Paley e até hoje é usado pelo DI. Um análogo a este raciocínio é:


-A nossa casa tem energia elétrica a qual é produzida por algo que um ser inteligente, no caso o homem criou;


Ou seja, a energia da casa pode vir da usina hidroelétrica, da usina nuclear, da usina termoelétrica, de um gerador, de painéis solares, de equipamento eólico, etc.


-O relâmpago tem energia elétrica;


Qualquer um de nós sabe disso.


-Logo, a energia elétrica do relâmpago somente poderá vir de algo criado por um ser inteligente.


Assim, parao raciocínio em questão, há duas premissas verdadeiras com uma conclusão duvidosa em seu encerramento.










Todavia, quanto a energia elétrica produzida pelo relâmpago, esta é decorrência da diferença de potencial entre o solo e as nuvens de chuva e entre estas mesmas nuvens de chuva, exceto na hipótese "nonsense" de haver um maluco, munido de uma bobina de Tesla gigante a se divertir fazendo relâmpagos, o que levaria à possibilidade de uma conclusão duvidosa quanto origem do fenômeno.


Veja mais sobre raios aqui.


Assim, segue conforme o raciocínio do DI:


- Uma máquina e suas partes são criadas por um ser inteligente, no caso o homem, conforme um projeto específico;


Isso é o óbvio, homens planejam e executam a confecção de máquinas com um propósito, que é obter a máquina "tal".


- Um olho, uma nadadeira, um órgão interno e um organismo parecem possuir um "projeto específico"dentro da natureza;


O projeto apenas parece ser um padrão na natureza (simplesmente parece que tudo na natureza possui um projeto, mas não é bem assim). Esta linguagem é muito utilizado pelos cientistas, porém de modo figurado e não literal como interpretam os adeptos do DI.


- Logo, os "projetos" da natureza, quem os fez, só pode ter sido o criador inteligente.


Mantemos duas premissas verdadeiras com uma conclusão duvidosa encerrando o raciocínio. Ou seja, não há confirmação de nada que leve a esta conclusão, nem que a desabone.


Desse modo, há por trás do DI o criacionismo disfarçado de ciência, uma vez que se vale do argumento teológico como forma de dirimir a questão relacionada ao "projeto" existente e visível na natureza.


Tal postura simplesmente dogmatiza a questão a encerrando em algo insondável à matéria científica. Ou seja, o que por enquanto não se explica, "chuta-se" para os deuses. "Vamos para outra questão, mas já adianto que "foi Deus".


Há que se lembrar também que projetos realizados pelo homem possuem uma finalidade e são realizados em etapas planejadas (ex. vou fazer um carro modelo "F" e seguirei as etapas, conforme o planejamento elaborado pelos engenheiros).


Aqui o propósito é obter o carro modelo "F". Se for montada alguma coisa que seja diferente do carro modelo "F", ou se o modelo sair diferente do planejado, haverá uma falha de projeto que poderá comprometer a produção e seu propósito (o carro modelo "F").


Diferentemente, ocorre com a natureza, a qual não busca finalidade alguma e não planeja as etapas de seus "projetos" (vou fazer o ser "X" seguindo as etapas "Y", "Z" e "W").


Ao longo do registro fóssil pode-se perceber que muitos seres foram descartados por serem incompatíveis com as mudanças ocorridas em seus ambientes ou por serem superados na corrida armamentista registrada na evolução de espécies contemporâneas.


Na natureza não há o propósito de se obter o ser "X", pode ser que conforme o ambiente do planeta interagindo com o ecossistema, em vez do ser "X" se desenvolva o ser "A", "B", "C", etc,. não se considerando qualquer caso destes como uma erro de "projeto da natureza".


Além do mais, o "projetista inteligente" não parece tão bom assim, pois o registro fóssil de projetos abortados é enorme e até hoje há muitas imperfeições como a agilidade do guepardo e sua pouca força e resistência, nossos problemas de coluna, problemas genéticos (miopia, calvície, degenerações do sistema nervoso), tumores em geral, tremores de terra, quedas de asteróides, explosão de estrelas, morte de sistemas solares, choques intergaláticos, etc. Tudo isso poderia ter um projeto bem melhor.


Mas, como pode-se deduzir a partir de tudo que, até então, tem sido feito em termos de estudos no que se refere ao universo, à vida e suas origens, bem como a evolução das espécies, o "projetista inteligente" se denomina muitas coisas, tais como interações quânticas, condições de reações químicas, evolução das espécies, etc., todas até então entendidas como causas meramente naturais, sem a presença detectada de qualquer ente sobrenatural.


Numa próxima oportunidade, discorrerei sobre a visão que Francis Collins, autor do livro "A Linguagem de Deus" tem do DI e do criacionismo.


Para o azar dos adeptos destas hipóteses, a visão de Collins, embora seja um religioso, não é nada animadora; é um balde de água fria na cabeça daqueles que tentam justificar suas crenças em seres sobrenaturais criadores, com base nos argumentos do DI e / ou do criacionismo.


Collins assume a postura de um verdadeiro cientista, não permitindo que suas crenças pesoais invadam a esfera de seus trabalhos, exceto no que concerne ao seu foro íntimo.


Se Gleiser crê ou não em deus, isso é um assunto de foro íntimo da pessoa dele. Todavia, arrastar deus para a ciência é dogmatizá-la, eliminando-se os por quês e estabelecendo-se como um postulado uma causa primeira duvidosa e pior, pois além dela, partimos para o insondável (território proibido a perguntas e investigações, pois os deuses simplesmente "são o que são").


A matemática não é uma ciência natural, mas um auxiliar poderoso desta.


Em ciências naturais, seus princípios são observáveis na natureza e não mentalizados por nos como meras noções intuitivas.


Diferentemente ocorre com o ponto, a reta e o plano, que é de onde partiu a matemática e se tratam de noções meramente intuitivas, assim como as noções de conjuntos, os números, idealização de espaços em vetores, cálculos estatísticos, noções de grupo, anel, corpo, espaços, derivação, integração, diferenciais, etc.


Certamente, a matemática é uma, mas sua representação poderá ser muito diversificada se existir alguém lá fora que pense sobre o que é o universo.









Acho que vc, Evandro, ao tratar Glaiser como se fosse um Zé qualquer, que não sabe o que está dizendo, é quem chutou o balde, chutou o pau da barraca, derrubou a farinha, quebrou a taça de cristal e "caiu do velotrol", uma vez que Gleiser apenas agiu com a racionalidade que é exigida pelo método científico.


Em se tratando de crenças pessoais (ideologias, religião, princípios, valores, etc.), isso deve fazer referência a matérias de foro íntimo de cada indivíduo e jamais devem ser base de fundamentação em trabalhos cujo conteúdo em nada se coadune a elas, principalmente no que se refere ao discurso científico. ]